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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

QUE É A VERDADE?

Pr. Dorisvan Cunha
“Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade?” (João 18.38).

Penso eu que um dos mais marcantes encontros da história humana foi o narrado no Evangelho de João capítulo 18. Pôncio Pilatos versus Jesus, o carpinteiro de Nazaré, frente a frente na basílica de Jerusalém. Toda a força governamental estava do lado de Pilatos, mas Jesus apostava na força da Verdade, do Amor e do Perdão. Ou seja, a idéia que Jesus disseminara era mais poderosa do que a força bruta de Pilatos, especialmente porque ia ao encontro de uma necessidade humana que não podia ser atendida pelos césares.[1]
A pergunta mais importante deste encontro feita por Pôncio Pilatos ao Carpinteiro de Nazaré ainda permanece viva em nossa memória e ecoa por todas as partes desse universo: “Que é a verdade?”.[2] Jesus não respondeu a essa pergunta a Pilatos. Mas, em outra ocasião ele já havia dito aquilo que está gravada inequivocamente em nossos corações: “Eu sou... a verdade” (Jesus Cristo - João 14.6).
Jesus, obviamente, não era um mentiroso, isso não está em harmonia com seu caráter irrepreensível. Ele também está longe de ser um maluco, mentalmente perturbado. Não é assim que a Escritura o apresenta. Ele de fato era da Verdade e nasceu para dar testemunho da Verdade, conforme já havia dito a Pilatos: “Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.”[3]
Com isso estou afirmando que de fato Jesus era verdadeiro em suas afirmações e era de fato quem dizia ser, a saber, o Eterno Filho de Deus que se fez carne e morou entre os filhos dos homens, no tempo e no espaço, no planeta Terra. Eu, particularmente, já afirmei em outro post (leia: “encarnação: a total identificação do amor”), que não tenho mais dúvida desse fato! Durante um tempo vivi atormentado acerca da Veracidade Histórica do Evangelho, o que gerou em mim angústia e uma necessidade urgente de descobrir o que é a Verdade. Hoje, 31 de Agosto de 2011, estou convencido pelo testemunho das Escrituras e pelo desenrolar da história humana que Deus de fato viveu na Terra como homem e disse e fez as coisas que os Evangelhos relatam.
É bem verdade que qualquer pessoa pode fazer declarações as mais variadas possíveis. John Stott afirma em seu extraordinário livro “Cristianismo Básico”[4] que os hospícios estão cheios de pessoas iludidas afirmando ser Júlio César, o imperador do Japão ou Jesus Cristo. Mas, o detalhe é que ninguém acredita nelas.[5] Até mesmo você, meu caro leitor, poderia declarar ser Deus. Mas, a pergunta que você mesmo deve responder é: como você convencerá as pessoas de que você é Deus? “Que provas você traz para sustentar essa declaração?”. A resposta óbvia é esta: você não pode fazer isso. Seu caráter não sustenta nossas declarações. E o mundo inteiro sabe disso. Mas com Jesus de Nazaré a coisa foi diferente. As pessoas que andaram com ele e viram o que ele fez de fato acreditaram que Ele era Deus e selaram tal testemunho com sangue; e isso, por uma razão simples: Ele tinha as provas que validavam Sua declaração.
Considere pelo menos um dos relatos de Mateus sobre isso. Mateus era um publicano, cobrador de imposto, que foi convidado por Jesus para ser discípulo. Ele esteve lá. Ele o tocou e comeu junto com ele, na mesma mesa, pisou no mesmo chão, viu e ouviu as coisas que Jesus fazia, na Galiléia dos gentios. E quando Mateus escreve a biografia de Jesus seu objetivo principal é mostrar que ele mesmo está convencido desta Verdade: Deus visitou os seres humanos na pessoa de Jesus, o Galileu. Mateus endereça seu evangelho aos judeus e reúne provas inequívocas que apontam Jesus como o tão esperando Messias, o Filho de Abraão, Filho de Davi, e que sua vida é o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Por isso ele começa o evangelho declarando Cristo como sendo “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1).
Especificamente no texto de Mateus 14.33 o apóstolo relata um momento interessante em que todos os discípulos estavam juntos, atravessando o mar da Galiléia. Jesus os segue logo depois, mas andando por sobre as ondas. Miraculosamente Jesus faz também Pedro andar sobre as águas e, no final do episódio, os seus apóstolos assustados com o acontecido, prontamente reconhecem que Jesus não poderia ser simplesmente um homem, uma vez que estava andando sobre as águas, por isso o texto diz: “E os que estavam no barco o adoraram, dizendo: Verdadeiramente és Filho de Deus!”
Espere um pouco! Mateus afirmou que os apóstolos o adoraram, Inclusive ele? É exatamente isso que Mateus afirma: “os que estavam no barco o adoraram”. Em outras palavras, todos os ocupantes do barco caíram aos seus pés em humilde adoração ao reconhecerem: Deus está aqui, no meio de nós. Eles entenderam que Jesus de fato era o Messias prometido, o Deus encarnado, por isso, merecedor de adoração.
Isso é surpreendente! Os apóstolos eram Judeus e como tais defendiam o monoteísmo de forma convicta. Eles jamais prestariam qualquer ato de adoração a outro que não fosse o Deus verdadeiro revelado no Antigo Testamento. Por isso, foi somente pelo fato de reconhecerem a divindade de Jesus Cristo diante da sua ação majestosa no mar, que eles se prostraram unanimemente em adoração àquele a quem chamaram conscientemente de filho Deus.[6]
Portanto, deve-se dizer que Mateus, enquanto apóstolo de Jesus Cristo, estava consciente de que Jesus era o Deus-Homem e por isso apresentou não somente Cristo como o prometido na literatura Vétero-Testamentária, mas também, como alguém que possui a mesma capacidade do Pai de realizar atos extraordinários e que, portanto, é digno de Adoração. Ou seja, Deus se fez carne, e morou entre nós.
O que é a verdade? Emanuel, Deus entre nós, esta é a Verdade.
Por Cristo e Seu reino,
Van Cunha.


[1] DEBARROS, Doze homens, uma missão, p.33.
[2] João 18.38.
[3] João 18.37. 
[4] Gostaria sinceramente que o leitor procurasse esse livro e lesse do começo ao fim. Cristianismo Básico foi de tal importância para que eu pudesse encontrar o centro da minha vida que fiz a seguinte anotação no início do livro: “atenção, leitor, este livro mudou a minha vida. você está preparado para lê-lo?”
[5] STOTT, Cristianismo Básico, p. 42.
[6] CAMPOS, As duas naturezas do redentor, p. 177.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Encarnação: a total identificação do amor

Por Pr. Dorisvan Cunha

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós,
cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória” (João 1.14).

         Phillip Johnson, professor emérito de Direito na Universidade da Califórnia e respeitado apologeta cristão, afirma com maestria em seu livro “As Perguntas Certas”: “a encarnação e a ressurreição de Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, é, sem dúvida alguma, o acontecimento mais importante da história da humanidade...”[1]. Eu, Pr. Dorisvan Ferreira da Cunha, não tenho mais dúvida disso! Estou convencido pelo testemunho das Escrituras e da história que Deus de fato viveu na terra como homem e disse e fez as coisas que os Evangelhos relatam.
Dessa maneira, quando João diz que “o Verbo se fez carne” está afirmando que a segunda pessoa da Trindade tomou para si uma natureza humana, no tempo e no espaço, e veio morar com os filhos dos homens, no planeta Terra; ou, nas palavras de D. A. Carson, “a palavra que estava junto com Deus no princípio, entrou na esfera do tempo, da história, da tangibilidade humana”.[2]
João afirma: Deus se fez homem. E quando diz “se fez”, não é um “se fez” no sentido de ter cessado de ser o que era antes. Significa, contudo, que Ele assumiu a natureza humana sem deixar de lado a natureza divina.[3]
E foi exatamente isso que aconteceu: o Verbo “habitou entre nós.Deus armou sua tenda no palco da História humana. O próprio Deus estava presente em carne, em humilhação, no meio dos pecadores.[4] E tudo isso porque Deus amou o mundo de tal maneira que Deus seu único Filho para que os que nele crêem tenham a vida eterna.
A compreensão dessa verdade é, sem dúvidas, revolucionária! É combustível suficiente para empurrar a vida para frente e sacudir o mundo inteiro. Não basta apenas “ser sincero e desejar profundo”, como quis o maluco beleza; mas, basta crer e entender que Deus veio para o nosso ambiente e compartilhou das nossas dores e de nossas experiências dramáticas, junto de nós”.[5]
Com expressões vívidas e de forma eloqüente John Stott conclui:
O Filho de Deus não permaneceu na segura imunidade de seu céu, distante do pecado e da tragédia humana. Ele de fato entrou em nosso mundo. Esvaziou-se de sua glória e humilhou-se para servir. Assumiu a nossa natureza, viveu a nossa vida, suportou nossas tentações, vivenciou nossas triste­zas, sentiu nossas dores, carregou nossos pecados e morreu a nossa morte. Ele participou profundamente da nossa condição de seres humanos. Nunca se afastou das pessoas que se esperaria que ele evitasse. Foi amigo dos margina­lizados da sociedade e até mesmo tocou nos intocáveis. Não poderia ter sido mais igual a nós. Foi a total identificação do amor[6].
Bendito sejas, Cristo Crucificado, Ressurreto dentre os mortos, que vieste ao mundo dos perdidos, para que estes pudessem ser achados em Ti.
Por teu Reino, para sempre,
DorisVan Cunha.


[1] JOHNSON, As perguntas certas, p. 158.
[2] CARSON, O comentário de João, p. 111.
[3] HENDRIKSEN, Comentário do novo testamento: João, p. 119.
[4] LADD, Teologia do novo testamento, p. 361.
[5] MACLEOD, A pessoa de Cristo, p. 48.
[6] STOTT, Ouça o espírito, ouça o mundo, p.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Amar é assim...

 Pr. Dorisvan Cunha
“o cumprimento da lei é o amor... Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”
 (Rm 13.10; Gl 5.14).
Deus é amor. Deus, em Cristo, é a concretização histórica do amor. O Amor virou gente e morou entre os filhos dos homens. O Amor é uma pessoa. Conhecer Jesus é conhecer a pessoa do amor com cara, com suor, com olho, boca, cabelo, riso, com braços e abraços, com cheiro de gente.
O Amor amou pecadores, tocou os leprosos, devolveu a sanidade aos dominados por forças estranhas e malignas, perdoou os “imperdoáveis”, recebeu os rejeitados e anunciou esperança para os que se sentiam sem estrada na vida. O Amor certa vez declarou aos seus discípulos: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos”. De fato o amor deu a vida. E foi na Cruz que O Amor provou de forma concreta seu imenso amor por pessoas indignas. Foi no sangue da expiação infinita, no gesto histórico do Verbo encravado no madeiro que O Amor ganhou concretude histórico-existencial. Esta é a verdade mais poderosa deste Universo Cósmico: Deus nos amou e como prova enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.
A grande verdade do Deus que é amor é esta: Ele é amor não apenas de palavras, de versos ou inspirações românticas: Deus é Amor de fatos, de acontecimentos, de gestos e atitudes completamente perceptíveis na vida-humana-real. Deus é Amor pisando no chão, na arena da história, onde a vida carrega o sabor amargo do ódio, no túmulo dramático da existência humana.
Eu, Dorisvan Ferreira da Cunha, pecador de pecadores, ódio encarnado, salvo pela graça, estou convencido de que nós, seres humanos caídos, falidos e fracassados, falamos muito em amor e romantizamos virtudes necessárias, mas, não sabemos de fato o que significa isso. Freud Não explica! Aliás, ele não explicou nem mesmo a perversidade do seu próprio coração.
Só Deus, que é amor, explica o amor! Estou persuadido do que disse John Stott: “sem Cristo e sua cruz, o mundo jamais teria conhecido o verdadeiro amor."[1] Por isso, “se estamos procurando uma definição de amor, não devemos ir ao dicionário, mas ao Calvário”[2].
É lá, no Calvário, que o Deus do Evangelho, “prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.[3]
A Verdade do Evangelho para o Cristão do Século 21 é esta: Se de fato somos discípulos de Deus gerados pela Cruz de Cristo, devemos tomar consciência de que amor quer se transformar em caminhada de vida na vida debaixo do sol. Aqui e agora, já!
É assim que O Amor nos ensinou: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13.35). Segundo Ele, o discípulo só é verdadeiro quando a virtude do amor se tornou encarnação existencial.
Se o amor não se transformar em gestos e ações revolucionárias no contexto presente não haverá esperança. Nossa pregação será hipócrita, cheia de poesia e de retórica sentimentalista ou de ortodoxia dogmática, mas vazia de significado, vazia de vida, vazia de tradução, enfim, vazia do Deus que é O Amor. “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade.[4]
Este é o princípio axiomático estabelecido para mim e para você: O AMOR é a LEI da VIDA! O cumprimento da lei é o amor, porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
O Apóstolo Paulo diz que não basta apenas ter aparência de pietista consagrado a ponto de entregar o próprio corpo para ser queimado vivo! Sem amor, até o sacrifício pelo outro é abominação diante de Deu. O apóstolo ainda diz que não adianta ser ortodoxo e conhecedor de doutrina; O Diabo, como disse Sproul, é capaz de tirar uma nota boa numa  prova de teologia. Amor é maior que conhecimento doutrinário. Creio que John Stott está correto quando afirma que “o que distingue o cristão verdadeiro não a ortodoxia, a convicção certa, a fidelidade às doutrinas da Escritura, aos Credos, e às Confissões da Reforma. Tudo isso está certo. A verdade é sagrada. A sã doutrina é vital para a saúde da igreja. Entretanto, "ainda que eu conheça todos os mistérios e toda a ciência... Se não tiver amor, NADA serei".
Paulo diz que sem amor você é vácuo, você é oco, você não tem substância. Sem amor você pode ter conhecimento da Bíblia, pode ter mente versada na literatura poética, pode ser uma enciclopédia ambulante a ponto de recitar toda a história da filosofia ocidental, mas, segundo Paulo, você não passará de uma lata velha que com seus barulhos incomodam o ouvido de Deus. Sem amor eu, pastor Presbiteriano, posso preparar o melhor sermão, comover corações e fazer espetáculos, mas serei apenas pronunciador de discurso falso, de barulho que me tornarão mais culpado diante da Cruz.
É hora para refletir sobre o que Cristo requer dos seus discípulos. Penso que Ele deseja que transformemos o amor em atitude. Se isso não acontecer, então devemos parar de falar em fé cristã; devemos acabar com essa “conversa fiada” de ficarmos falando em amor de Deus. E para ser mais enfático: é melhor dizermos ao mundo que somos discípulo do inferno e amantes da tirania covarde, mas não da Cruz de Cristo, pois a Cruz pressupõe amor.
O desafio para você que me lê agora é: vá e mude o mundo! que teu  cristianismo seja factual, de acontecimentos, de gestos. Mais do que doutrinarismo, você precisa conhecer o amor que se transforma em caminhada existencial. Deus convida você para transformar a ortodoxia em ortopraxia (teologia e vida); Deus convida você para mostrar ao mundo, com as suas obras, que você tem fé verdadeira.
Você Tem seguido as pegadas do amor encarnado em alguma medida?  O que estás fazendo? Ó meu irmão, comprado pela Cruz, levante-se e comece a agir. Comece se ainda não começaste - Comece hoje[5]. A hora é agora!
Você é discípulos do Amor? Viva como tal...
Pelo reino de Cristo.




[3] Romanos 5.8  
[4] 1 João 3.17-19.  
[5] Catherine Booth, citado por Janice Grana, in 2000 Anos desde Belém, p. 128.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Coração maligno

Por John Stott
"Convocando ele de novo a multidão, disse-lhes: Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina... Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostitui­ção, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem”.
(Mc 7.14-15, 21-23).

Jesus não pregou a bondade fundamental da natureza humana. Ele certamente acreditava na verdade do Antigo Testamento,  de que o ser humano,  tanto homem como mulher, foi criado à imagem de Deus; mas também acre­ditava que essa imagem havia sido maculada. Ele pregou o valor dos seres humanos, inclusive dedicando-se a servir a eles. Mas também ensinou que não valemos nada. Ele não negou que somos capazes de dar "coisas boas" aos outros, mas também acrescentou que, mesmo que façamos o bem, nem por isso deixamos de ser "maus".[1] E nos versículos citados acima ele fez importantes declarações sobre a extensão, a natureza, a origem e o efeito do mal nos seres humanos.
Primeiro, ele ensinou sobre o alcance universal da maldade humana. Ele não estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, nem algum indivíduo ou grupo particularmente corrupto. Pelo contrário, ele estava con­versando com refinados, "justos" e religiosos fariseus, e então generalizou, falando sobre "um homem" e "homens". De fato, geralmente são as pessoas mais honestas que têm a mais profunda consciência de sua própria degradação. Tomemos como exemplo Dag Hammarskjöld, Secretário Geral das Nações Unidas de 1953 a 1961. Ele foi um servidor público profundamente comprometido, a quem W. H. Auden descreveu como sendo "um homem bom, grande e louvá­vel". Mesmo assim, a visão que ele tinha quanto a si mesmo era muito diferente. Em sua coleção de obras autobiográ­ficas, intitulada Markings, ele escreveu sobre "essa per­versa contraposição do mal em nossa natureza", que nos leva a fazer até do nosso serviço aos outros "o fundamento para a nossa própria auto-estima e preservação da nossa vida",[2]
Em segundo lugar, Jesus ensinou sobre a natureza ego­cêntrica da maldade humana. Em Marcos 7 ele enumerou treze exemplos. O que há de comum entre todos eles é que cada um é uma afirmação do ego, seja contra o nosso próximo (inclusive homicídio, adultério, furto, falso tes­temunho e cobiça - violações da segunda metade dos Dez Mandamentos), seja contra Deus (sendo que "orgulho e insensatez" são claramente definidos no Antigo Testamen­to como negação da soberania de Deus e até da sua própria existência). Jesus resumiu os Dez Mandamentos em termos de amor a Deus e amor ao próximo, e todo pecado é uma forma de revolta egoísta contra a autoridade de Deus ou contra o bem-estar do nosso próximo.
Terceiro, Jesus ensinou que a maldade do homem é de origem interna. Sua fonte se encontra, não em um ambiente ruim, nem em uma educação falha (se bem que ambos possam exercer uma forte influência sobre jovens impres­sionáveis), mas, sim, em nosso "coração", nossa natureza herdada e pervertida. Quase se poderia dizer que Jesus nos introduziu ao freudianismo antes mesmo de Freud. Pelo menos aquilo que ele chama de "coração" é, em termos aproximados, equivalente ao que Freud chama de "incons­ciente". Isso nos faz lembrar um poço bem profundo. A espessa camada de lama que jaz no fundo geralmente não se vê, e muito menos se suspeita. Mas quando as águas do poço são agitadas pelos ventos da emoção violenta, a imundície mais fétida e nojenta sai borbulhando das pro­fundezas e irrompe na superfície: ódio, raiva, lascívia, crueldade, ciúmes e revolta. Em nossos momentos mais sensíveis nós somos atormentados pela nossa potencialidade para o mal. E de nada adiantam tratamentos superficiais.
Em quarto lugar, Jesus falou do efeito contaminador da maldade humana. "Todos estes males vêm de dentro", disse ele, "e contaminam o homem".[3] Para os fariseus, a con­taminação era algo muito mais exterior e cerimonial; eles se preocupavam com alimentos limpos, mãos limpas e vasilhas limpas. Mas Jesus insistiu em dizer que a con­taminação é algo moral, que vem de dentro. O que nos torna impuros aos olhos de Deus não é o alimento que entra em nós (que vai para o nosso estômago), mas o mal que sai de nós (que sai do nosso coração).
Todas as pessoas que já conseguiram ver, ao menos de relance, a santidade de Deus, foram incapazes de suportar essa visão, de tão chocadas que ficaram diante da sua própria e contrastante impureza. Moisés escondeu o rosto, com medo de olhar para Deus. Isaías gritou, horrorizado, chorando sua própria impureza e perdição. Ezequiel ficou ofuscado, quase cego, ao ver a glória de Deus, e caiu de rosto em terra.[4] Quanto a nós, mesmo que nunca tenhamos tido, como esses homens, sequer uma visão momentânea do esplendor do Deus Todo-poderoso, sabemos muito bem que não temos condições de entrar em sua presença, seja agora ou na eternidade.
Ao dizermos isso, nós não estamos esquecendo a nossa dignidade humana, com a qual se começou este capítulo. Devemos, no entanto, fazer jus à avaliação do próprio Jesus sobre a maldade da nossa condição como seres humanos. Ela é universal (em todo ser humano, sem exceção), egocêntrica (uma revolta contra Deus e contra o próximo), íntima (brota do nosso coração, de nossa natureza caída) e aviltante (torna-nos impuros e, portanto, indignos diante de Deus). Nós, que fomos criados por Deus e como Deus, somos desqualificados a viver com Deus.

(Fonte: STOTT, Ouça o Espírito Ouça o mundo, p. 18-19)


[1] Mt 7.11
[2] Dag Hammarskjöld, Markings, trad. Leif Sjöberg e W. H. Auden (Faber. 1964) pp. 128-129
[3] Mc 7.23
[4] Êx 3.1-6; Is 6.1-5; Ez 1, especialmente v. 28.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Desespero Incessante de uma Juventude sem Deus

 
Pr. Dorisvan Cunha
Grande parte da juventude do século XXI está perdida! Há um clima de decomposição moral e espiritual pairando sobre a moçada de nossos dias. Há poucos dias contemplamos com tristeza a morte precoce da alcunhada “diva rebelde” Amy Winehouse que foi encontrada morta aos 27 anos por overdose. Amy chegou ao fim de uma vida angustiada assinalada sucesso, reconhecimento, escândalos, internações, fama e glória. Na verdade, tal episódio é apenas a manifestação visível do que acontece com milhares de jovens e adolescentes ao redor do mundo.
Do ponto de vista filosófico, particularmente creio que esse processo de deteriorização vem desde os dias do Iluminismo. Dr. R.C.Sproul escreveu um livro cujo título em inglês é “The Consequences of Ideas” (que está traduzido como Filosofia para Iniciantes). Nesse livro ele mostra como a cultura ocidental está soerguida sobre idéias de homens como Platão, Aristóteles, Agostinho, Kant e Nietzsche. Sproul expõe de forma interessante como as idéias desses pensadores nos afetam de modo tão substancial. De fato as idéias têm muitas conseqüências, e creio definitivamente que a geração do século XXI é conseqüência de idéias. 

O Processo De Secularização Do Ocidente
Emmanuel Kant é o grande divisor de águas. Para ele Deus está pralém da possibilidade do conhecimento humano e não podemos alcançá-lo. Deus está separado de nós e não se imiscui nas tramas das relações humanas. Com essa visão agnóstica da realidade Kant retira Deus da história, e o desespero começa a aparecer.
O período que se segue a Kant é de profunda transição no pensamento ocidental, especialmente nos princípios teológicos e morais do cristianismo. Jesus Cristo, o Eterno Filho de Deus, passa a ser visto apenas como mestre de grandes qualidades morais. É o liberalismo teológico corroendo as bases do cristianismo histórico.
Charles Darwin publica em 1859 o seu famoso livro “A Origem das Espécies”. Com sua teoria, proporciona ao homem a possibilidade de se ver como “descriado”, produto do tempo mais o acaso. Com isso “abala” a teoria bíblica da criação do homem e da natureza; a Bíblia cada vez mais perde espaço e fica desacreditada entre as “elites intelectuais”.
Karl Marx aparece afirmando que a religião é o ópio do povo. Freud mostra ao mundo que Deus nada mais é do que uma projeção da imagem paterna impregnada desde cedo na mente do ser humano. Se não bastasse tudo isso aparece no século XIX um jovem tomado de ódio pelo cristianismo. Seu nome? Friedrich Nietzsche (1844-1900). Ele declara a morte de Deus e a morte da verdade. Dele, os jovens do século 21 herdam a doutrina do super-homem. O super-homem segundo Nietzsche é um ser corajoso, rebelde, imortal, ateu, violento, tirano, egoísta, agarrado à terra sem nunca levantar os olhos para os céus.
Para Nietzsche, Deus é apenas uma criação imaginária dos povos fracos; Dr. Luiz Sayão, diretor acadêmico do seminário Servo de Cristo, afirma que para Nietzsche “a fé cristã elogia o pobre, o humilde, o necessitado e destina o rico e poderoso à condenação; a religião era, portanto uma arma ideológica dos miseráveis e inferiores contra os aristocratas e inferiores”.[1] Foi assim que os seres humanos “expulsaram” a Divindade do convívio diário dos homens e as elites intelectuais modernas deram as costas para o Deus Eterno.

O Drama Terrível
A partir daí a humanidade tem que encarar um problema terrível, a saber, a “morte” do Deus judaico-cristão e as conseqüências dessa ousada declaração. Ou seja, a expulsão de Deus traz consigo a morte dos valores absolutos, posto que estes só podem encontrar referenciais de afirmação nos preceitos absolutos do Deus da Palavra.
A proposta de Nietzsche, portanto, implica na queda de todos os valores morais da cultura ocidental. Como disse Sproul, sem Deus “todos os valores antigos tomados com grande fervor na história da cultura ocidental perdem sua vitalidade e validade”.[2] Assim, nossa juventude está perdida porque se encontra sem chão e sem referencial absoluto de existência, posto que o Deus Verdadeiro está fora de cogitação.
Nietzsche levou sua crença a sério. Ele ensinou à sua geração o que significa “Deus não existir”. Ensinou aos jovens como deve ser o perfil de um menino ou de uma menina que assume o niilismo[3] absoluto. Ele não apenas colocou na boca de Zaratustra a declaração de que Deus está morto,[4] mas também procurou viver coerentemente com sua crença. Juntamente com o decreto da morte de Deus ele decretou a falência da moralidade cristã, restando para as gerações posteriores apenas a “nova moralidade” fundamentada na rebeldia do super-homem.

Jovens do Século XXI: Filhos de Darwin e de Nietzsche
A pergunta que deve ser feita hoje, no século XXI é: o que isso tudo tem a ver com os jovens de hoje? O que isso tem a ver com a juventude afundada nas drogas e na prostituição? Em que isso afeta seu filho que vive alucinado em busca de satisfação para a vida? O que isso tem a ver com jovens do centro de São Paulo, do Recife, do Rio de Janeiro, de Belém, de Marabá que se sentem perdidos existencialmente? Ou, como colocou Luis Sayão: como isso afeta diretamente a minha vida? A resposta é: afeta de muitas maneiras!
A conseqüência dramática do sistema de vida proposto pelos filósofos dos séculos XIX e XX está percebida no advento de uma sociedade pluralista, relativista, hedonista, individualista, sem verdade, sem valores, sem regras, sem lei e sem legislador...literalmente sem nada (niilista). Esta é a razão da perdição existencial da menina e do menino do século XXI. Esta é a causa do aumento da violência, do alto índice de abortos, do mergulho definitivo no mundo das drogas, da pulverização da família, da rebeldia homossexual, etc. Para compreender melhor, atente no questionamento do Filósofo cristão Willian Craig:

Quem num mundo sem Deus julgará quais valores são corretos e quais valores são errados? Quem se levantará para afirmar que molestar crianças e estuprá-las é um erro? Quem julgará que os valores de Adolf Hitler são inferiores aos de um santo? Quem há de dizer que o estupro é um crime? sob que critérios se edifica uma moral numa existência sem absolutos? Que juiz determinará que o Mal é o mal e que o Bem é  bom? E se isso acontecer, por que aceitar isso para vidas que são coincidências? Se a vida é aberração, não há por que dignificar o homem, a moral e a família. Não há também por que ser poeta, pintor, filósofo, pai e homem de moral e de boas condutas num mundo sem Deus.[5]
A “expulsão” de Deus é o drama da nossa geração! Sem Deus a moral está perdida e o sentido da vida fica obscurecido. Eis a tragédia do jovem pós-moderno! Hoje, em pleno século XXI, com toda a sofisticação da tecnologia, estamos diante de uma geração sem responsabilidades e sem valores, e “um universo sem responsabilidade e sem valores é incalculavelmente terrível.”[6] Constata-se com isso que “a maior contribuição dos Niilistas para a nossa geração foi apontar as nítidas conseqüências do que seria uma vida sem a existência de Deus”. [7]
Estou convencido de que a declaração da “morte de Deus” criou um vazio na geração do século XXI. Os jovens pós-modernos são filhos de Darwin e de Nietzsche, por isso estão perdidos existencialmente com um vazio do tamanho de Deus. Os valores morais da civilização ocidental caíram com a queda dos princípios cristãos. Agora a juventude está numa busca desesperada por um sentido mais profundo. As opções oferecidas são: sexo, droga e rock-and-roll. Mas, dramaticamente, estas coisas são pequenas demais para alimentar almas com aspirações eternas.
Nietzsche ensinou nossos jovens a serem loucos e rebeldes, mas não os ensinou como sair deste estado de morte e alienação. Nietzsche apresentou para a nossa geração o “verdadeiro” sentido da vida humana encarnado no Super-homem: “Eu vos apresento o super-homem! O Super-homem é o sentido da terra”12, porém ele não advertiu a nossa geração que os seguidores de sua proposta morreriam alucinados e desesperados.

A Orfandade Existencial do Jovem no Século XXI
A juventude de nossa coletividade histórica precisa de valores e tenta desesperadamente encontrar a âncora da vida. Mas, essa mesma geração “abandonou” o Deus da Bíblia e abraçou a proposta insana de Charles Darwin e Friedrich Nietzsche, por esta razão está angustiada. A Ciência autônoma e a racionalidade que prometeram proteção não trouxeram, contudo, explicação para os dramas mais profundos da raça. Desta maneira, nossos jovens estão sem Deus, sem acreditar nas ciências, e sem saber o que fazer da vida: a juventude está sozinha. Ou nas palavras de dois seus profetas: “está tudo morto e enterrado agora” e “o acaso é quem vai te proteger...”[8].  Lamentável Geração!

Deus: A Única Esperança da Nossa Geração
A única esperança para esta geração está em Deus. As respostas que procuramos estão na Verdade do Evangelho. Somente Alguém Eterno pode responder às aspirações eternas do jovem do século XXI. Agostinho de Hipona, cansado da vida desregrada e sem sentido, entendeu que nossa alma foi criada para Deus e só encontrará satisfação quando for satisfeita Nele. Os puritanos Ingleses compreenderam muito bem essa verdade, e por isso a primeira pergunta do Breve Catecismo de Westminster é: qual o fim principal do homem? A resposta: “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Nós nascemos para Deus, e isso deve se constituir na razão suprema da vida humana.

O Sentido de Missão do Jovem Cristão no Século Xxi
Se quisermos de fato mudar a história da nossa geração; se queremos ser relevantes para a nossa época; se estamos interessados em virar este mundo de cabeça para baixo e sacudir as estruturas dessa sociedade falida, assim como fizeram os apóstolos do século 1º e os reformadores do século XVI, então precisamos trazer de volta, de forma corajosa e destemida, os princípios do cristianismo histórico revelados na Palavra de Deus. Precisamos de jovens corajosos que abram a boca e gritem: “não me envergonho do Evangelho”. Jovens como o moço valente e destemido descrito por John Banyan que chega ousadamente e diz: “coloque meu nome, senhor”[9]. Precisamos de meninos e meninas conscientes do seu papel e convictos de que o Deus da Bíblia é a resposta; gente que sabe que o Deus Eterno está aí e falou a nós através da Verdade do Evangelho. Pessoas com a certeza de que Deus não nos abandonou, de que Ele não está calado, mesmo que os homens tentem expulsá-lo daqui.
Concluo essa reflexão parafraseando Luiz Sayão, fazendo um apelo para a cristandade atual, especialmente a juventude cristã: “é necessário parar de brincar de ser crente. Precisamos conhecer a situação presente de modo a sermos capazes de sair desse esquema. Cada geração tem seu desafio... eu, como jovem cristão, preciso escolher qual será a razão da minha vida. Se quero usar meus talentos para o reino de Deus preciso começar a agir hoje, pois a morte me aguada. Se sigo a postura mundana de gastar a vida “se divertindo”, ficando rico, buscando fama, não sou digno do nome de Cristão”[10].
E não esqueça: "A existência de Deus é o elemento principal na construção de qualquer visão de mundo. Negar essa premissa mestra significa içar as velas para a ilha do niilismo. Esse é o continente mais escuro da mente obscurecida--o paraíso final dos tolos.” [11]
Avante, jovens de Cristo! Deus é a nossa esperança!
Que Deus levante jovens de aço para confrontarem este mundo com a Palavra da Verdade.
 Por Cristo e Seu reino.
Van Cunha.

[1] SAYÃO, Filosofia prática para cristãos, p.24.
[2] SPROUL, Defendendo sua fé, p. 138.
[3] Niilismo: conceito filosófico que significa basicamente “Redução a nada”; é o ponto de vista segundo o qual nada existe de absoluto. Sem dúvidas isso afeta diretamente as mais diferentes áreas da vida humana: literatura, ciência, arte, política, ética, moral e religião.  Os Niilistas desvalorizam tudo o que é absoluto e decretam a morte do sentido.  Para eles os valores tradicionais da fé cristã devem ser sacudidos e posto em discussão. Assim, a superfície das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e agora fica difícil prosseguir no caminho e avistar um ancoradouro seguro.
[4] “Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu bosque que Deus já morreu?” (NIETZSCHE, 2002. p. 25).
[5] CRAIG, A Veracidade da Fé Cristã: Uma Apologética Contemporânea, p. 61.
[6] CRAIG, A Veracidade da Fé Cristã: Uma Apologética Contemporânea, p. 67.
[7] SPROUL, Defendendo sua Fé, p. 138.
[8] Trechos das músicas “Perfeição” de Renato Russo e “Epitáfio” do Titãs.
[9] BANYAN, O peregrino, p. 60. Minha sugestão é que você leia todo o livro.
[10] SAYÃO, Filosofia prática para cristãos, p.53.
[11] SPROUL, Filosofia Para iniciantes, p.166.

 

A Cruz de Cristo

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